O que fazem as novas tecnologias com nosso cérebro?

O que fazem as novas tecnologias com nosso cérebro?

A tensão entre a exaltação e o pessimismo em nossas sociedades é um fenômeno que se realça frente as grandes transformações da cultura. Apocalípticos e integrados, como os chamaria Umberto Eco, lutam por interpretar qualquer novidade de acordo com suas expectativas.
A invenção da internet gerou uma das grandes revoluções da história da civilização, já que modificou de vez as formas de sociabilidade, comunicação e acesso a informação.

A sociedade digital se estende de maneira vertiginosa e transforma aspectos fundamentais do ser humano.

Uma das grandes transformações desta nova realidade se dá a partir da ideia de um presente permanente e de uma totalidade abrangente com somente pressionar um botão para a navegação web (mas poderíamos ampliar para a telefonia celular, o email, o chat, o uso das redes sociais).

A memória é um processo composto pelas habilidades de codificar, armazenar e recuperar certa informação. Existem diferentes tipos de memória: uma, considerada de trabalho, que é a que elabora informação recebida segundos atrás; outra, a de longo prazo, é a que armazena informação recente (por exemplo, de alguns dias atrás) ou remota (por exemplo, da nossa infância); e a prospectiva, que é a que nos permite planejar eventos futuros.

Cada um desses tipos de memória envolve diferentes áreas cerebrais, sendo o lóbulo frontal o principal motor de busca de nosso cérebro. Mesmo assim, esta área do cérebro se associa com a memória de trabalho, ou seja, com esta capacidade de manter a informação na mente disponível para a sua manipulação. O lóbulo frontal é também fundamental para a capacidade de realizar diversas tarefas simultaneamente mantendo na mente uma meta principal e de ordem superior, capacidade conhecida como multitasking. Além disso, esta área do cérebro está relacionada com nossa atenção, quer dizer, a capacidade de focar em certa informação em detrimento de outras, de mudar de uma a outra ou atender a duas fontes de informação ao mesmo tempo.

Vale perguntarmos então que mudanças precisará nosso cérebro, em constante adaptação, depois do momento em que começamos a enfrentar a essa nova maneira de processar a informação. Essa situação que promove o acesso a informação de maneira absolutamente distinta a como funcionava a 50 anos atrás também nos faz refletir até que ponto nosso cérebro pode sustentar esse estímulo operativo e essas tarefas múltiplas (multitasking).

Não é casualidade que seja então o lóbulo frontal a área que mais ganhou espaço em nossa evolução.

É importante ter em conta que esta sobre exigência pode derivar, sobretudo quando o cérebro está em desenvolvimento, em um transtorno compulsivo. A pessoa que transita longas sessões conectadas em detrimento de outras atividades, com necessidade imperiosa de se conectar e grande mal-estar se não consegue, com dificuldades para se autolimitar e com efeitos nocivos em seu estado de ânimo (usualmente depressão e ansiedade) são os sintomas mais frequentes deste transtorno viciante.

Isto não significa que os usos normais de estas tecnologias levem a esta condição, mas sim que, no geral, os que padecem são pessoas que apresentam uma neurobiologia particular que os fazem mais vulneráveis a cair nessas condutas compulsivas.

Borges descreveu em um dos seus relatos na Biblioteca de Babel, como uma biblioteca total e interminável, com uma natureza informe e caótica, mas que através dela o universo estava justificado, que com ela o universo havia usurpado bruscamente as dimensões ilimitadas da esperança. Muitos leram isto como uma alegoria antecipatória da internet. Justo vinte e cinco anos depois de sua morte e em um texto sobre neurociência, ainda se segue invocando o professor.

Facundo Manes – Diretor do Instituto de Neurología Cognitiva (INECO) e do Instituto de Neurociencias da Fundación Favaloro. Presidente do “Grupo de Investigación en Neurología Cognitiva” da Federación Mundial de Neurología.

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Texto traduzido de: https://www.clarin.com/zona/hacen-nuevas-tecnologias-cerebro_0_H1mxu0lavXl.html

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